Salário em estado líquido
A relação entre cerveja e trabalho existe desde a Antiguidade. Em civilizações antigas, a bebida era usada como parte do pagamento da mão de obra. Uma tabuleta de argila de 3 mil a.C., do acervo do Museu Britânico, registra as rações de cerveja distribuídas a operários na cidade de Uruk, na Mesopotâmia. No Egito Antigo, também há registros de pagamento com cerveja, e há quem diga que as pirâmides foram construídas com o apoio da bebida, que fornecia hidratação e nutrição.
Saison: o combustível das fazendas
Antes da industrialização, a cerveja era feita em fazendas. O estilo Saison preserva essa história. No interior da Bélgica, os fazendeiros produziam a Saison no outono e inverno para vender aos saisonniers – trabalhadores temporários da plantação e colheita. Segundo o mestre cervejeiro Phil Markowski, a Saison era uma “cerveja de provisão”: refrescava os trabalhadores no verão, ocupava a mão de obra fixa no inverno e gerava bagaço para alimentar o gado. As Saisons modernas são leves, secas e refrescantes, com notas frutadas e toque condimentado. Um exemplo é a Saison Dupont, que voltou a ser importada para o Brasil em 2026.
Grisette: a aliada dos mineiros
No Sul da Bélgica, região que se industrializou entre o fim do século 18 e o início do 19, a cerveja Grisette era apreciada por mineradores. Leve e refrescante, era pensada para ajudar a recuperar as energias após o trabalho nas minas. O nome significa “a pequena cinzenta”, podendo se referir à aparência turva da bebida ou à condição dos trabalhadores cobertos de cinzas.
Porter: a “rockstar” da Revolução Industrial
A Porter leva o nome dos estivadores do porto de Londres no século 18, e se tornou símbolo da Revolução Industrial, sustentando a nova massa de operários. Segundo o jornalista Martin Cornell, foi a primeira cerveja “rockstar” do mundo. Acredita-se que surgiu como mistura de cervejas com diferentes teores alcoólicos nos pubs, consumida por trabalhadores braçais. Foi uma das primeiras cervejas escuras, de cor marrom, e uma das primeiras a usar mais lúpulo na Inglaterra. A Fuller’s London Porter tenta se aproximar do estilo original.
Bitters, German Lagers e o Movimento Trabalhista
Na Inglaterra do século 19, as reuniões de trabalhadores eram ilegais até 1824, e muitos encontros ocorriam em pubs, com cervejas como Porter, Stout e Bitters. Essas cervejas claras e amargas acompanharam o crescimento do movimento trabalhista. Nos Estados Unidos, em 1º de maio de 1886, em Chicago, mais de 300 mil trabalhadores fizeram greve exigindo 8 horas de trabalho, 8 de descanso e 8 de vida. Três dias depois, ocorreu o massacre de Haymarket, com bomba, repressão e execução de líderes. Em 1889, a data de 1º de maio foi instituída como símbolo da luta trabalhista. A cerveja que acompanhava esses trabalhadores era a German Pils, mais lupulada e amarga, trazida por imigrantes alemães. Exemplo atual é a Frohenfeld German Pils, de Curitiba (PR).
O Brasil e o Dia do Trabalho
No Brasil, os trabalhadores começaram a comemorar a data no início do século 20. O feriado foi instituído por decreto do presidente Artur Bernardes em 1924. Em 1º de maio de 1943, Getúlio Vargas assinou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituindo salário mínimo e férias, e alterou o nome para Dia do Trabalho.
