Brasília é conhecida como centro do poder político, mas foi na música que a capital encontrou uma de suas expressões mais marcantes. Ao longo das décadas, diferentes gerações transformaram o cotidiano da cidade em som, revelando não apenas estilos, mas realidades distintas que coexistem no mesmo território.
Nos anos 1980, o cenário era de inquietação. Em meio ao fim da Ditadura Militar no Brasil, jovens artistas encontraram no rock uma forma de expressão. Foi nesse contexto que surgiram bandas como a Plebe Rude. “Foi quando o momento encontrou o instante. O movimento punk estava explodindo no mundo enquanto nós estávamos perdidos no meio deste entreposto burocrático no meio da savana brasileira durante uma ditadura. O punk nos deu nosso norte”, afirma Philippe Seabra, vocalista e guitarrista da banda.
Segundo o músico, a urgência política era inevitável. “Não tinha como ficar alheio ao que estava acontecendo. Brasília naquela época não nos dava escolha. A banda nasceu dessa urgência”, completa.
Para Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, o movimento nasceu de uma vivência coletiva. “O Capital começou junto com as outras bandas da nossa geração. Na verdade, nós, Plebe Rude, Legião Urbana, Finis Africae e muitos outros éramos da mesma turma. Saíamos sempre juntos, frequentávamos a casa um do outro, íamos pras mesmas festas e fazíamos shows juntos também”, relembra. Ele aponta que o tédio e o contexto do Brasil contribuíram. “Estávamos no final do regime militar e havia uma sensação de estrangulamento — uma impressão de que uma mudança não era só necessária, mas possivelmente iminente.”
As letras nasciam da experiência cotidiana. “Falávamos do nosso dia a dia, das nossas angústias, da nossa esperança — sem saber que o que sentíamos era compartilhado por uma multidão de brasileiros e brasileiras.” Dinho afirma que havia o desejo de desafiar os poderes constituídos. “Éramos incrivelmente pretensiosos, na medida em que achávamos que seríamos uma peça na engrenagem que faria o regime cair. Nos víamos como subversivos.” Ele ressalta o caráter espontâneo: “Tudo era sobretudo muito divertido.”
A força da produção projetou Brasília. O reconhecimento nacional veio de forma gradual. “As bandas da nossa turma foram sendo gravadas aos poucos. Começou com os Paralamas, depois Legião Urbana, Plebe e, finalmente, o Capital. Em 1986, estávamos todos vendendo centenas de milhares de discos. Parecia difícil acreditar que aquilo estava acontecendo conosco”, relembra Dinho. Décadas depois, ele avalia que canções como ‘Música Urbana’ ganharam novos significados. “Ela é, na verdade, sobre Brasília e o estado de espírito da nossa turma. Fala da rodoviária, da torre, da nossa inquietação.” No aniversário da capital, Dinho reforça: “Brasília está no nosso DNA. A cidade nos moldou. Não se pode falar do rock brasileiro sem falar do rock de Brasília. Na minha opinião, as melhores bandas do país são de Brasília.”
Entre memória e permanência
Para a Plebe Rude, o impacto ultrapassou o tempo. “Ninguém esperava o respaldo de ‘Até Quando Esperar’. O sucesso foi tão gradativo que, quando dei por mim, tinha virado hino”, diz Seabra. As letras ainda encontram ressonância. “Infelizmente ainda dialogam, digo infelizmente porque muita coisa não mudou no Brasil. Como artista fico feliz com a relevância da obra, mas como cidadão fico aflito em ver os mesmos erros do passado tão presentes.” Sobre qual música melhor traduziria a cidade, ele responde: “‘Brasília’. Conseguimos sintetizar esse caso de amor e ódio.” Ele descreve a capital como uma utopia idealizada que revelou contrastes profundos.
Outras vozes da capital
Se o rock dos anos 80 revelou uma Brasília inquieta, a década seguinte ampliou esse retrato com o crescimento do hip-hop. O Câmbio Negro trouxe a vivência das periferias do Distrito Federal. “O Câmbio Negro quis retratar a realidade do povo periférico, pobre, marginalizado, discriminado. Isso acontecia em todo o país e também aqui, tão próximos do poder e tão isolados dele”, afirma o rapper X. “A imagem que a gente queria construir com as músicas do Câmbio sobre Brasília era a de protesto, de politização, de conscientização. E sempre contrastou com a visão da capital.”
Ele relembra o choque com a percepção externa. “Quando a gente ia tocar em outros lugares, muita gente tinha aquela visão errônea: ‘pô, você mora em Brasília, todo dia você tropeça num político’. E a gente falava: ‘não, bicho, nossa realidade é outra’.” A escolha estética e narrativa nunca foi neutra. “Tem que ser dito de forma direta, nua, crua. Esse tipo de situação requer urgência.” Mesmo décadas depois, ele avalia que o cenário ainda exige posicionamento. “A situação ainda é extremamente grave. Racismo, discriminação, violência — isso precisa ser falado, mostrado e combatido.”
A trajetória musical de Brasília revela uma cidade que vai além de sua imagem institucional. Enquanto o rock nasceu entre jovens do Plano Piloto, o rap expôs a realidade das regiões administrativas, como a Ceilândia. “Nossa realidade sempre foi outra. Cresci em barraco de madeira, sem esgotamento sanitário, sem água encanada. Queríamos mostrar que o povo periférico ainda hoje é tratado como cidadão de segunda ou terceira classe”, afirma o rapper. Essa diversidade de vozes ajuda a entender por que Brasília ocupa um lugar singular na música brasileira. A produção cultural da capital reflete contrastes, tensões e transformações que seguem em curso.
