No feriado do Dia do Trabalho, o autor conseguiu parar para maratonar a série documental sobre Ronaldinho Gaúcho na Netflix. A experiência começou sem pretensão e, em pouco tempo, já havia levado de um episódio ao outro, sem conseguir parar. O personagem e a qualidade da produção, bem feita, contribuíram para isso.
Há um desafio claro na proposta: condensar mais de duas décadas de história em algumas horas. Ainda assim, o saldo é positivo. A série acerta ao entender que Ronaldinho não é apenas um jogador para ser analisado, mas um fenômeno para ser sentido.
Poucos jogadores foram tão capazes de provocar isso. Ronaldinho deu alegrias em escala quase absurda. Alegria no sentido mais puro da palavra. Não era só eficiência ou talento, era prazer em jogar. Na história do futebol brasileiro, só Garrincha se aproximou tanto disso: a capacidade de transformar o jogo em espetáculo espontâneo, em diversão compartilhada com quem assistia.
A série captura bem essa essência. Mostra o Ronaldinho que encantou o mundo, que redefiniu o que era possível fazer com uma bola e que deixou marcas profundas por onde passou. O documentário reforça algo perceptível: a veneração quase unânime que ele desperta entre jogadores.
Um dos pontos mais fortes é o reconhecimento vindo de dentro do futebol. O carinho e a gratidão de Lionel Messi não são protocolares. São genuínos. Messi admite, sem rodeios, a importância de Ronaldinho no início de sua trajetória no Barcelona. Houve ali uma passagem de bastão simbólica, tratada com sensibilidade pela série.
Outro mérito é não fugir dos momentos difíceis. O episódio da prisão no Paraguai aparece como o ponto mais delicado da narrativa. O que chama atenção é como Ronaldinho atravessa aquilo: com distanciamento, quase com leveza, mantendo traços do bom humor que sempre o caracterizou. É um retrato de alguém que parece lidar com a vida, até nos momentos duros, sem perder a própria essência.
Há espaço para mostrar o lado mais íntimo, especialmente a relação com a família e com o irmão, elementos fundamentais na construção de sua carreira. Esse olhar humaniza ainda mais um personagem que, por vezes, parece quase folclórico.
O que fica é uma constatação simples: Ronaldinho é um caso raro de unanimidade afetiva. Ele não era apenas admirado, era querido. Isso faz uma diferença enorme.
A comparação com nomes da geração atual ilustra bem isso. Neymar é um fenômeno técnico, mas divide opiniões: amado por muitos, rejeitado por outros. Vinícius Júnior enfrenta algo mais grave: uma campanha de racismo que impacta sua expressão em campo e fora dele. Nenhum dos dois consegue transmitir a leveza contagiante que Ronaldinho exalava naturalmente.
Ronaldinho tinha algo difícil de explicar e impossível de fabricar: ele se fazia amado, inclusive pelos adversários. Talvez seja esse o maior legado que a série consegue resgatar. Mais do que gols, títulos ou dribles, o que ele deixou foi uma sensação. Uma alegria coletiva que atravessava rivalidades e transformava o futebol em algo maior. E isso é para pouquíssimos.
