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Vivre sa Vie, a santidade da prostituição



Apoiadas nas sujas paredes amarrotadas de cartazes dos largos bulevares, encontram-se boa parte das prostitutas parisienses, umas jogam conversa fora e outras fumam seus longos cigarros. No entanto, todas esperam, esperam por seus acompanhantes e esperam pela melhora dos resultados da sua santa luta.

Uma vida em 12 atos, um ciclo, um ano. Essa é a proposta de Jean Luc Godard ao apresentar para o público as tristes avenidas da vida, os hotéis frios da Champs Elyse e os pequenos e barulhentos cafés suburbanos. Vivre sa Vie é um retrato da vida, a vida como ela é, sem maquiagem e sem retoques, é a beleza do vazio e o desnudar que permite ver a alma.

Acompanhamos Nanã na sua vertiginosa decadência pelas mazelas da sociedade, desde a falta de moradia, a humilhação pública e a necessidade de se prostituir. Mesmo com todo seu sofrimento, ela não se incomoda com seu trabalho. É indiferente para ela, é nada mais que uma das várias faces da vida. Seu olhar é vazio e cheio, é antagônico. Godard exprime, por meio daqueles olhares, toda a beleza de não se ter mais nada; ao se tirar todo o exterior, resta a ela seu interior, mas como até ele lhe é tirado, encaramos a diretamente na alma.

Como Joana D´Arc Nanã é santa, é santa pelo seu sacrifício, por exercer a profissão mais difícil do mundo e ainda achar beleza na tristeza do vazio, pelo estoicismo e a sensação de que as palavras sempre atraem, pelo simples desejo de que a fala fosse exata como o sentimento. Seu martírio era inevitável, mas consigo leva toda libertação de sua alma e a salvação daquelas que exercem a mesma profissão que ela.