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Somos verdadeiramente livres?




As revoluções burguesas do século XVIII, em especial a Revolução Francesa, afloraram os debates acerca dos ideais iluministas de liberdade e igualdade no contexto social. Atualmente, essas discussões persistem e são fundamentadas nas visões de diferentes pensadores, que por diversas vezes questionam se as proposições da conhecida “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” existiriam, verdadeiramente, fora da teoria. Neste texto, discorreremos acerca do que pensa o renomado filósofo alemão Karl Marx acerca desta temática, abordada principalmente em sua série de livros “O Capital''.


Em sua obra, Marx apresenta a questão da liberdade no sistema capitalista à luz do método dialético ou seja, uma lógica filosófica que estuda as contradições na essência dos fatos e dos acontecimentos. Desta maneira, propõe que o ser humano “é” e “não é” livre, simultaneamente. Isso porque, de acordo com o filósofo, a ideia de liberdade no sistema capitalista é contraditória.


O capitalismo tem como pressuposto a liberdade no que diz respeito ao mercado, às trocas comerciais; entretanto, é necessário atentar-se que este mercado não diz respeito apenas a troca de mercadorias, mas sim, principalmente, do único mecanismo capaz de agregar valor a um objeto de venda: a força de trabalho.


Sob essa ótica, Marx destaca que os processos mercantis dentro do capitalismo se dão por uma dinâmica que possui como finalidade o dinheiro. Todavia, o dinheiro, por si só, não é sinônimo de capital. Este acúmulo de capital ocorre através da “mais-valia”, na qual, ao término dos ciclos de compra e venda, há um excedente de lucro em relação ao que foi investido. Isso só pode ser cumprido, no entanto, porque o valor agregado à mercadoria é produzido pelo operário, ainda que não seja ele quem recebe aquilo que produziu. É esta movimentação que transforma o dinheiro em capital. Mas de que modo a “mais-valia” se relaciona com a liberdade?


A relação entre ambas se estabelece ao passo que, para que seja gerado este acúmulo de capital, o trabalhador precisa ser livre para vender sua força produtiva. Como cita Marx, "Para que seu possuidor venda-a como mercadoria, ele deve poder dispor dela, ser, portanto, livre proprietário de sua capacidade de trabalho, sua pessoa” (O Capital, v. 2, 1867). A contradição, entretanto, reside no fato de que, para vender sua força produtiva, o trabalhador também deve ser livre dos meios de produção ficando, deste modo, à mercê dos interesses e desmandos capitalistas.