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O Trem ou Terminal Líquido.

“No brilho ofuscante da pessoa escolhida, minha própria incandescência encontra seu reflexo resplandecente.

-Zygmunt Bauman



Enfim sozinhos. Sozinhos no mundo infinito dos meus pensamentos quando meus olhos se dirigem a você. Se me perguntassem saberia dizer com precisão onde começou nossa não-história.

-No trem da vida que segue líquido, numa manhã de fevereiro encontrei sua contingência. O bater do meu coração cessou atônito, ruborizei até o mais profundo do meu ser. O nosso instante, o instante que me faltou ar pela primeira vez. Senti a liberdade e senti sua falta, tudo no mesmo instante em que fitei seus maxilares juvenis. Não saberia dizer a duração desse momento único dentro do espaço tempo, não o saberia. Os cegos diriam que foi paixão à primeira vista. Eu não o sei. Saber é um ato, sentir é um fato.

No passar dos dias e das horas irregulares, nossas não-troca de olhares, nossas subjetivas não-conversas sobre os assuntos mais pertinentes da existência humana. A nossa não-relação. Tudo se moldou de uma maneira tão natural nas dimensões infinitas das ideias.

Nosso mundo. Meu mundo.

Não-dançávamos a melodias de grandes compositores, não-girávamos criando um redemoinho de ar que nos envolvia. Éramos casa e lar. Éramos a utopia.

Escrevo hoje olhando para você, sinto respirar o mesmo ar que passa pela sua circulação pulsante, minha respiração se sincroniza com a sua em um ritmo angelical das orquestras solenes de outono, onde outrora reinavam as incertezas e que agora, as certezas residem dentro de meu “eu” em um amálgama irreversível.

Mesmo o vendo apenas de longe, consigo captar todos os centímetros de seu corpo preciso. Meus nervos imaginários se nutrem de impulso e desejo quando sua mão não-toca meu corpo incômodo. Meu medo e seus mistérios são o tom de meus versos efervescentes e secos como o mar.

Eu o amo e você não-me ama no café à beira-mar que pintei de maneira imprecisa em tons de amarelo e azul, luz e sombra, idealização e realidade. Em você vejo o sentido dos versos brancos e das poesias sem métrica. Você é o suplemento da minha existência vazia. Você é o baixo no concerto de jazz, você dita o meu ritmo.

Em um dia específico de Abril vi um livro repousando em seu colo. Em um gesto de desespero corri até a livraria mais próxima o comprei e li tudo na mesma noite. Em minha mente divagavam pensamentos de como você teria se sentido lendo as mesmas palavras que agora leio. Na manhã seguinte o levei até nosso não-ponto de

encontro habitual. O segurei em meus braços para que você o encontrasse com seus olhos incertos.

E sim. sim. Em meio ao desespero a coisa mais improvável aconteceu. Você. Você em toda sua congruência dirigiu as seguintes palavras a mim “esse livro é muito bom, gosto muito dele”.

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As palavras se esvaziaram da minha boca, meus olhos se marearam em luzes e explosões incompreensíveis de metamorfoses e ar que voa e se expande. Meu peito corria e meus joelhos perdiam o equilíbrio. No meu ouvido o barulho dos carros se transformou em ondas de um oceano vasto e só.

No meu instinto animal mais notável sorri e acenei gentilmente minha cabeça querendo concordar.

E assim se foi esse mais leviano instante no mundo em que meus nervos não são de aço e que as dualidades são transformadas em paradoxos e espectros infinitos e imprevisíveis. Eu er