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Nossa velha bossa nova

Era o fim da década de 50, o Brasil vivia tempos charmosos, vislumbrava um crescimento econômico com a construção das indústrias de base e se descobria como “país do futebol” com Garrincha dando olézinhos desmoralizantes ao lado de um adolescente mineiro chamado Edson, apelidado de Pelé. Quando ambos estavam vestindo a amarelinha da seleção, faziam chover com a pelota nos pés.



Vivia-se também a era de ouro do rádio, onde tocavam os boleros recheados de sofrência, despedidas, desilusão e dor. Vamos combinar que essas paradas não combinam nada com a aura morena e sorridente dessa povoação brazuca. Esse papo não colava naquela época preta, branca e colorida que não existia depressão.


Até que, em 1958 chegou na rádio a inovação brasileira, a revolução do planeta, o futuro chegou e não estou falando de carros voadores e de chocolate que não engorda, tô falando de “Chega de Saudade”, que meses antes havia sito publicado no álbum “Canção do amor demais”, de Elizeth Cardozo, que continha exclusivamente composições de Vinicius de Moraes e Tom Jobim. A poesia da dupla juntamente com o violão de João Gilberto combinou como arroz e feijão, essa junção teve como fruto algo muito maior do que a soma das partes, exprimia o cotidiano e era um ritmo que representava o país mais do que futebol e samba.


O álbum de Chega de Saudade caiu como um trovão na cuca do povo, todo adolescente queria ter um violão e saber tocar como João, essa canção era o Brasil em som, som que virou tendência e abriu espaço pra outras lendas da música nacional, que na época eram desconhecidas. Alguns deles são: Dorival Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime, Nara Leão, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Marcus Valle, entre outros.


Na vida nada é unanime e com a bossa nova não seria diferente. Haviam ressalvas principalmente da galera do samba, que não se amarraram no movimento pois consideravam a americanização do samba, que não era nem samba nem jazz, falavam que era “música de goteira”. Mas isso não atrapalhou a nossa velha bossa nova, que seguiu como um trenzinho emplacando clássicos, como: Garota de Ipanema (que merece uma matéria só pra ela por aqui), O pato, Corcovado, Águas de Março, Insensatez, Eu sei que vou te amar, Samba de uma nota só, e por aí vai...