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“Laranja Mecânica” e a Decadência da Moral

Em um filme, no qual a classificação de “controverso” soa como eufemismo, Stanley Kubrick pinta um certo niilismo irônico, brincando com um desconfortável humor negro.


*Alerta: contém spoilers!*



Uma Inglaterra futurista e distópica, um Estado repressivo e totalitário e cidadãos anestesiados e complacentes com o crescimento de uma cultura jovem e violenta. Alex DeLarge e sua gangue, os “drugues”, vagam pelas ruas cometendo todo tipo de atrocidade ao som da nona sinfonia de Beethoven. Em cartaz durante 61 semanas na Grã-Bretanha e retirado a pedidos do próprio diretor, que vinha sofrendo uma série de ameaças contra ele e sua família, Laranja Mecânica é um monumento artístico.


Com uma recepção pra lá de ambígua da crítica e acusada pelos jornais de promover uma série de atentados violentos, a obra se mantém atemporal, não só pelas qualidades cinematográficas, mas pelas relevantes critícas a sociedade moderna.


A camada estética por trás da violência deixa o espectador em uma espécie de dilema. Se por um lado existe um imenso desconforto ao acompanhar cenas tão atrozes, é também impossível desviar os olhos da tela. A maneira glamourosa por qual Kubrick escolhe filmar tudo isso, acompanhada pelas melhores composições de Beethoven, fazem tudo parecer uma dança terrivelmente fascinante. Claro que na década de 70, a romantização da violência era muito mais incomum e teria piores repercussões do que atualmente, mas não deixa de ser chocante.


Logo após a abertura, conhecemos a primeira vítima dos drugues, um mendigo bêbado cantando uma música de seu país natal. Quando confrontado por Alex, o senhor dá um dos monólogos que mais que mais exemplifica a crise moral vivida no século XX, à qual Kubrick tece algumas de suas críticas. No auge da Guerra Fria, em meio à miséria e a conceitos deturpados de democracia, as prioridades pareciam ter sido completamente trocadas, tendo em vista que um foguete rondando a lua era mais importante que as normas terrestres.


Depois de uma rodada da “boa e velha ultraviolência’’, Alex acaba sendo traído por seus companheiros, preso e submetido a um tratamento experimental, que prometia cura-lo de todas as tendências violentas — “Transformando o mal em b