Buscar

“La Dolce Vita, uma vida não tão doce”


A estátua de Jesus Cristo sobrevoa Roma abençoando a cidade de Deus e da luxúria. A selva de concreto arde em sua beleza ancestral e mística contrastada com o exotismo da modernidade. Da barca de Calígula aos cabarets da Via Veneto, a cidade se transfigura, mas seus habitantes continuam os mesmos.

Este é o local escolhido por Fellini para conduzir o público em sua catártica obra prima “La Dolce Vita”, um épico sobre o lado dionisíaco do ser e da intrínseca beleza carnal que carrega a embriaguez do espírito.

Acompanhamos Marcelo (um colunista de fofocas) em sua travessia pela alta burguesia romana: de prostitutas a princesas e de filósofos a vigaristas, a sociedade da extravagância brilha ofuscantemente sobre o olhar do público. Porém, ao desviarmos o olhar do holofote, Marcelo se apresenta como um mero articulista do vazio.

Quando não nos permitimos seduzir na contagiante catarse animalesca das situações, nos deparamos com uma sociedade de quebrados, independentemente do que possuem. Os aristocratas sem propósito, os artistas que cobiçam a fama, e o jornalista que sucumbe a miséria. Marcelo representa a perdição, a luta para se desvencilhar do delírio do barulho, fadado ao eterno abate da tentação e a volta a seu mundo esquálido.

La Dolce Vita não é uma simples obra, é uma experiência embriagante, um estudo sobre a harmonia da perdição e a constante vontade de cair. São inconstantes e tímidos relampejos de beleza.