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História e Cinema: Como os dois se complementam?


Para muitos a história é um estudo que apenas se embasa em acontecimentos do passado e os analisa. Na realidade, o ofício do historiador vai muito além de um questionamento e junção de fatos desse pretérito. No artigo Antiquarismo e História Perfeita: relações entre erudição e historiografia moderna, Evelyn Morgan trata sobre essa questão do senso comum com relação ao trabalho do historiador.


“A pesquisa erudita antiga é o antecedente da nossa história cultural e social. O antiquarismo que se expandiu no final do século XVI e início do XVII é denominado por Momigliano como um novo Humanismo, inspirado na antiguidade e alimentado por amadores, ou seja, homens que se interessavam pelos fatos históricos sem se interessar, necessariamente, pela história.” (PAIVA, 2010)


Partindo disso, então, pode-se repartir o trabalho de um historiador em duas vertentes, a do antiquarismo – mencionada no trecho acima – e também a do investigador; esta última não usa somente do passado, mas também do presente. Sendo assim, o investigador teria como centro de seus estudos o homem e a partir dele a história seria analisada, para isso, o mesmo dispõe de objetos de trabalho que ajudam a melhorar suas pesquisas, dentre todos alguns são: documentos manuscritos e impressos, gravações, fotos, filmes e objetos. No meio historiográfico denominamos esses objetos de estudo como fontes históricas, elas podem ser divididas e classificadas em alguns campos, mas os mais abrangentes são das fontes primárias e secundárias.

É nesse quesito que o cinema é introduzido. Vivemos em um momento o qual a história cultural e política pede por demonstrações para sua manifestação, o cinema não deixa de ser uma delas e se enquadra em uma fonte histórica. A cinematografia é um produto da história, logo, é um excelente meio para a observação do lugar a qual a produziu, ou seja, a sociedade que determina suas temáticas, formas de produção e linguagem. A fonte cinematográfica, particularmente a fonte fílmica, torna-se evidentemente uma documentação imprescindível para a História Cultural – uma vez que ela revela imaginários, visões de mundo, padrões de comportamento, mentalidades, sistemas de hábitos, hierarquias sociais cristalizadas em formações discursivas, e tantos outros aspectos vinculados à de uma determinada sociedade historicamente localizada (BARROS, 2007).

Outrossim, o cinema também é um agente histórico, ou seja, ele tem o poder de influência sobre a história podendo ajudar a mudar seu curso e transformá-la. Por ser considerada uma fonte inesgotável e de constante renovação, a arte cinematográfica é um processo revolucionário da contemporaneidade, visto que, independentemente da sua temática, mesmo que mascarada, o cinema pode e traz história. Para o âmbito das relações entre cinema e história, interessa particularmente a possibilidade de a obra cinematográfica funcionar como meio de representação ou como veículo interpretante de realidades históricas específicas, ou, ainda, como linguagem que se abre livremente para a imaginação histórica (BARROS, 2007).

Fica evidente, portanto, que o cinema é um meio importantíssimo para o curso mundial, em diversos campos e não só no histórico, mas, dentro deste, conversa muito bem com a cultura, política e oralidade da historiografia. Dentro da história do Brasil, por exemplo, alguns clássicos representam com excelência o papel historiográfico do cinema: Jango (1984), Carlota Joaquina (1995), Xica da Silva (1976), Guerra de Canudos (1997), Memórias do Cárcere (1983) e Pra Frente Brasil (1983). Sendo assim, então, o cinema assume – para muito além de sua dimensão como meio e como objeto de estudo – a função de sujeito da História (BARROS, 2007).