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Escrevendo diários: o ressurgimento do Journaling

Um hábito relembrado por tendências de redes sociais e que pode ajudar na criatividade

Por Yasmin Silva Nilsson


Com cara de um hábito infantil e de filme, muitos especialistas na psicologia e na neurociência falam há muitos anos dos benefícios de manter registros físicos de acontecimentos pessoais, sejam eles fortemente emocionais ou nem tanto. Lembrando que nenhuma solução rápida existe, o valor da experiência de escrever diários (ou de só anotar todas as suas preocupações no papel para evitar que obrigações fiquem como balas ricocheteando dentro da cabeça) todos os dias, ou depois de experiências significantes, resume seu impacto na consistência. Mas por que esse hábito de escrita funciona tanto?


O neurocientista Joseph Ledoux, em um estudo sobre memória, cognição e emoções apontou que a crença de que a memória é algo que fica guardada e só é acessada quando utilizada está errada. Na realidade, toda vez que a memória é acessada, ela é reconstruída de algum modo. Além do que vídeos curtos virais de Instagram e TikTok mostram, escrever diários nos faz criar uma memória mais recente de uma passada, ter um registro físico de acontecimentos temporais, acessar memórias de uma experiência e reconstruí-las em uma perspectiva consciente.


Esse terceiro ponto possui uma complexidade um pouco maior. Nossas memórias são divididas em duas categorias principais: as emocionais - mais implícitas, guardadas em sistemas do cérebro mais difíceis de serem acessados de forma consciente - e as cognitivas, associadas às atividades e aos discursos diários. Acontece que emoções são processadas em um nível subconsciente, e pouco se associam àquilo que pensamos no momento em que acontecem. Quando as escrevemos, ficamos conscientes de sua existência, e é aqui que as reconstruímos toda vez em que lemos seu registro.


Mas escrever diários ou jornais não tem uma importância restrita a acontecimentos emocionais - em um certo grau, ela também existe para o resto dos acontecimentos. Fazer isso em tais casos ajuda a não deixar pensamentos importantes perdidos no meio de eventos mais marcantes ou mais significativos.


No geral, escrever nos ajuda a entender melhor nossas próprias memórias, e a acessá-las quando quisermos - escritora como sou, posso ser suspeita para falar, mas a base para esses fatos é gigante. Benefícios como aumento do bem-estar psicológico, do entendimento sólido de como você funciona, e, para quem escreve, até o uso mais frequente de palavras expressivas e reflexivas de ideias em produções textuais vem como consequência. Tal flexibilidade de acesso e de reinterpretação dá base para um melhor entendimento das próprias experiências, e de achar novos significados nelas em todas as vezes de relembrança.