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“Castelo Animado” e o Realismo Fantástico

Guerras de mundos fictícios, fogo falante, bruxas, reis, maldições, paixão, família, viagem no tempo, esses e muitos outros elementos, compõem o conto de fadas do Estúdio Ghibli.


A primeira cena de “O Castelo Animado” mostra uma paisagem encoberta por uma névoa, quando de repente somos apresentados ao que parece ser uma máquina monstruosa andante e cheia de chaminés que soltam uma fumaça cinzenta. Com trinta segundos de filme, já é claro que o castelo não é só um ambiente, mas um personagem dentro da narrativa. Personagem: só essa palavra sozinha já serviria como sinopse para a obra-prima de Hayao Miyazaki. Qualquer “coisa” que aparece na tela, seja uma chama, um cachorro peludinho, ou um espantalho, tem uma personalidade própria, com nuances e cicatrizes próprias. Sophie, uma humilde chapeleira pouco confiante de si mesma, é transformada em idosa por uma bruxa maligna. Na tentativa de voltar a sua forma normal, ela vai de encontro a Howl, um famoso bruxo que rouba o coração de qualquer mulher.

É difícil dizer só um tema para “O Castelo Animado”. A cada dez minutos parece que toda a história muda e mais um elemento essencial é introduzido, mas se engana quem pensa que tudo isso é só jogado e bagunçado. Muito pelo contrário, a construção proposta pelo diretor alinha tudo isso e fecha em um dos finais mais memoráveis do Estúdio Ghibli.

Na superfície, o filme é uma crítica explícita à guerra, coisa que Miyazaki não se cansa de criticar ao longo da sua filmografia. Pode-se dizer que o principal alvo foi os Estados Unidos na Guerra do Iraque, conflito o qual o diretor manifestou ser inteiramente contrário pela sua ausência nas premiações dos óscares aos quais ele foi indicado.

Eu, no entanto, acho simplista reduzir essa crítica a um evento específico, acredito que o objetivo de Hayao é falar sobre a falta de sentido na violência. Digo isso, pois nós como espectadores, não sabemos os nomes dos reinos envolvidos no conflito, tampouco suas motivações. O fato do filme também não apresentar um antagonista claro e sim personagens ambíguos frutos dessa sociedade corrupta, reforçam essa ideia.