Buscar

Blackface

Atualizado: 16 de abr. de 2021




Essa prática teve origem no início do século XIX, nesse período a escravidão ainda acontecia legalmente. A palavra faz menção à prática de pintar o rosto de tons mais escuros como marrom e, a cor que é muito mais recorrente, preto, a fim de fazer alusão a uma pessoa negra. Pessoas brancas, na época, passavam carvão de cortiça e outros tipos de tinta para fazer a coloração, mas deixando de fora os lábios de forma que eles se destacassem mais e fossem vermelhos. Certamente, essa alusão que é feita por pessoas brancas estão, de alguma forma, ridicularizando o povo negro, ou seja, sendo racistas e preconceituosos. Na época do século acima, essa prática ocorria na maioria das vezes em espetáculos humorísticos, sendo assim, atores com a cor de pele clara se pintavam para representar os negros em situações humilhantes, reproduzindo seus jeitos de falar, andar, etc. Essas ações vinham com o intuito de fazer daquilo um espetáculo com o conteúdo engraçado, provendo o deboche e desdenho da situação que o negro sempre presenciou na sociedade. É mister ressaltar que, nessa época, os negros não podiam, obviamente, frequentar os teatros e ver espetáculos, nem se quer participar de algum del es.

Diante dessa análise e definição do Blackface, irei dissertar mais sobre como isso é problemático e ainda é preocupante nos dias atuais. No livro “Quem tem medo do feminismo negro?” a Djamila Ribeiro relata sobre um acontecimento dessa prática muito recente, mais precisamente, em 2 015:

“A companhia teatral Os Fofos Encenam apresentaria, no dia 12 de maio de 2015, a peça A mulher do trem no Itaú Cultural. Escrevi “apresentaria” porque uma personagem, que não por acaso é a empregada doméstica, era caracterizada com blackface, uma representação esdrúxula do negro, o que levou a manifestações de repúdio nas redes sociais e ao cancelamento da apresentação pelo instituto...” (P.60)

Isso mostra como essa cultura errônea do Blackface ainda é muito recente. Não podemos esquecer também que até hoje em dia ainda vemos isso acontecer em edições de fotos, maquiagens etc. Mesmo que pessoas afirmem que essa alusão a pessoas negras seja um “mimimi” desnecessário, eu responderia que, no mínimo, seria necessário que essa pessoa procure e pesquise mais as raízes traumatizantes e desumanas da nossa sociedade racista; e, qualquer fala que seja a favor disso estará, automaticamente, compactuando a favor da discriminação. Ou até queiram se posicionar afirmando que cometeu essa prática, mas sem “agredir” ou ferir a integridade de nenhum negro, não há necessidade de pôr em prática, porque, consequentemente, ferirá uma história e uma luta as quais muitos lutam para cessar de vez essa injustiça diária.

Ademais, o que temos que nos perguntar é: Porque pessoas brancas necessitam se caracterizar e se pintar para se transformar em pessoas negras, sendo que 52% de pessoas do país são negras, para que fazem questão silenciar a população negra em prol da população branca? Não há resposta coerente que caiba nessa pergunta pelo simples fato de que essa questão não deveria nem estar sendo posta em questão, pois deveríamos dar vozes aos negros do mesmo jeito que damos aos brancos. Caso seja necessária uma pessoa negra em algum papel na televisão, por exemplo, por que não chamar um negro para representar tal lugar? Por que lutam contra e decidem pintar um branco com a mesma experiência – ou até mesmo sem experiência naquilo que faz e só estaria ocupando esse tal papel por conta da sua cor de pele?

Com isso, podemos notar como o Blackface nos move a questionar milhares de pautas importantes, por exemplo, como os negros ainda se situam na sociedade em uma posição vexatória e em condições de deboche, ou como certas “brincadeiras” e comentários são completamente racistas. Nossa função como cidadãos seria de não compactuar com esse tipo de entretenimento que envolva práticas e pensamentos ra cistas. O racismo ainda é uma realidade e temos que nos informar sobre essa realidade e tentar não fazer parte disso e nos autoquestionar: será que em algum momento eu compactuei com esse tipo de prática, ou até mesmo feri alguém pelo a maneira que eu falei? <