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Alice Guy: A verdadeira mãe do cinema

A mulher cineasta - que foi esquecida pela história do cinema - foi pioneira na sincronização de imagem e som, colorização a mão, elenco inter-racial e no uso de efeitos especiais. Entretanto, a história, algumas produções e a genialidade dela foram lembradas apenas mais de 100 anos depois.


A Fada Do Repolho (1896)


Auguste e Louis Lumière, considerados por leigos como os pais do cinema (perdão pela arrogância, mas é verdade), realizaram no dia 22 de março de 1895 uma exibição para amigos e colegas de trabalho para apreciar a sua nova invenção, o cinematógrafo. Porém, ninguém esperava – e nem chegariam a pensar – que entre os convidados estaria a futura mãe do cinema, a secretária em começo de carreira Alice Guy-Blaché.


Após a morte do pai e do irmão e da independência das três irmãs do meio, ela e sua mãe tiveram que seguir sozinhas, lutando pela sobrevivência e por reconhecimento. Assim, após algum tempo, Alice Guy soube que o ComptoirGeneral de Photographie estava procurando e contratando secretárias; que na época, era uma profissão vista como de classe média alta. Portanto, Alice acabou entrando na empresa e ajudando sua mãe com as despesas domésticas. Mal sabia ela, por conta da realidade ainda mais machista daquela época, mas era o começo de uma tortuosa, porém rica jornada no início da sétima arte.


Algum tempo depois já trabalhando na empresa, Alice Guy foi convidada junto com seu chefe, Léon Gaumont, para presenciar um método realmente eficaz de realizar vídeos. Inspirada e admirada pela exibição, ela decidiu ir mais longe e usar o novo aparato tecnológico para contar histórias, e não para fins científicos e documentais como os Lumière’s idealizaram no início.


Ao dizer que estava encantada com o instrumento ao chefe, Gaumont emprestou a máquina para a secretária. Com isso, Alice Guy escreveu, dirigiu, produziu e estrelou no que vinha a ser o primeiro filme de ficção científica da história do cinema: La Fée Aux Choux, uma lenda folclórica europeia no qual bebês nasciam de repolhos. Nesse filme, já é possível notar a mudança da proposta e o pioneirismo da autora; enquanto meses atrás as produções eram imagens do cotidiano da época em Paris, a sua apresentação já marcava com a presença de narrativa, atuações, cenários, figurino, iluminação e o ponto de partida de uma linguagem cinematográfica. Com o grande sucesso e a paixão dado na filmagem de pouco mais de um minuto, Alice Guy foi promovida a chefe de produções cinematográficas na empresa. Isso no final do século XIX, que sabemos ser uma época de grandes conflitos de gênero, etnocentrismo, racismo e neocolonialismo.


“Faziam filmes de trens chegando à estação, ondas quebrando na praia... Quem se importa? Eram temas sem graça. O cinema poderia ter morrido ali mesmo e ninguém iria notar. Era preciso gente como Alice Guy para mostrar que cinema era mais do que apenas cenas de arquivo.”