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A tríade Gaga

Memorável por seus trajes escandalosos nos tapetes vermelhos dos anos 2000, a história de Gaga aborda muito mais do que cores e tecidos



Por motivos estéticos, vou sugerir que você ouça a Hey Girl enquanto lê essa matéria. Eu me lembro muito bem de ficar confusa lendo notícias sobre um vestido de carne ou sobre metais que a artista utilizou em seus mais diversos trajes. Ítalo-estadunidense, alumnade Tisch e reverberada por sua mudança de estilo, Lady Gaga teve os maiores pedaços de sua história revelados mais de uma década depois de ter atingido o topo da fama dentro da indústria pop.


Saindo de seu estilo Monster, marcado por canções cujas letras faziam jus ao estilo que agrada ao universo pop, Gaga causou muitos diálogos depois de lançar seu álbum Joanne em 2016 e, pouco depois, o documentário “Five FeetTwo”. Nele, ela relata suas dificuldades diárias com fibromialgia e histórias por trás de Joanne, incluindo uma música em homenagem a uma tia que faleceu aos dezenove anos.


O longa-metragem também captura essa história em meio ao processo de mixagem, lançamento e promoção do álbum, culminando em sua performance no Super Bowl. A estética pessoal, introspectiva e íntima que ele traz através dos momentos gravados trouxe uma cobertura infinitamente nova para os próximos capítulos a serem escritos por Stephanie Germanotta - seu nome não-artístico. Ela contrasta a cobertura que a era de 2008, cuja reverberação foi proporcionada por The Fame, deu à sua figura - perucas, máscaras e chapéus - sendo muito mais reveladora e aberta.


Críticos de cinema pela internet, nesse contexto, comentaram na falta ou na atenção mínima às cenas devidamente musicais. Afinal, o documentário é sobre uma popstar. Todavia, a presença de cenas picadas, realizando essa transição rápida, deixou um ar extremamente familiar aos problemas que a circundam. Ainda assim, esse ar amadurecido mudou por alguns anos a percepção alternativa que o público tinha de Stephanie.


Em uma terceira fase, inaugurada pelo disco Chromatica (2020), Gaga ressuscitou sua persona alternativa - mas abrangendo uma percepção distinta. Ela fez com maestria o agregado de uma tríade no conceito de Gaga-Joanne: a junção de crítica social, amadurecimento e estilo. Todas as músicas desse lançamento falam sobre o planeta Chromatica que, ao mesmo tempo, existe e não existe, enquanto ela comunica ao ouvinte, em suas próprias palavras a uma entrevista com Zane Lowe, “thebeautifulabstractionofmyperceptionofthe world” (“a bela abstração da minha percepção de mundo”, em tradução livre).


Um retorno às suas raízes do eletropop, que, com atenção às letras, traz um diário pessoal no qual ela reflete como ela é sua própria maior inimiga: ter se tornado a artista no nicho mainstream trouxe essa prisão para a própria vida de ser sempre definida por tudo que faz, tudo que veste e pelo tratamento como objeto por parte do público: