14/01/2026
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De Lima Barreto ao Banco Master: uma análise cronológica

Em “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, o personagem Genelício representa um funcionário público que se destaca pela ineficiência e pela indolência. Ele finge trabalhar enquanto se dedica a seguir regras ultrapassadas e protocolos sem relevância, como a criação de um livro sobre tribunais de contas em países asiáticos, que se mostra irrelevante. Esse cenário, descrito por Lima Barreto em 1911, se transforma em uma questão central na atualidade, mais de um século depois.

Rui Barbosa, em sua análise sobre a formação do Tribunal de Contas da União, alertou para a possibilidade de que essa entidade se tornasse um “ornato decorativo e inútil”. Infelizmente, essa previsão se mostra mais grave, com os tribunais de contas frequentemente atuando como suporte para esquemas ilícitos.

Atualmente, a situação é alarmante. Até mesmo a Polícia Federal, que costumava ser vista como um símbolo de credibilidade, tem sua imagem abalada. Praticamente todas as instituições enfrentam desconfiança. O escândalo conhecido como “affair Master” prejudicou a reputação do Supremo Tribunal Federal, impactando também outros ministros. Além disso, a CPI do INSS revelou esquemas de proteção a práticas corruptas, aprofundando a crise em diversos níveis do governo e do Legislativo. O presidente do Senado é alvo de denúncias, e o vice-líder do governo passou por uma operação policial, enquanto investigações atingem até a família do presidente da República. A atuação de milícias digitais em casos de corrupção não é nova, sendo semelhante a episódios anteriores como os “blogs sujos”, mas agora se expande para além do contexto político.

Como chegamos a essa situação atual? O comportamento e os incentivos mudaram desde a operação Lava Jato, mas o problema da associação entre o Estado e grandes interesses privados não é novidade. A maior empreiteira do Brasil possuía um setor inteiro dedicado ao pagamento de propinas. Assim como a J&F, que distribuiu cerca de R$ 500 milhões a quase 2.000 políticos. Os métodos são conhecidos, mas o que se destaca agora são dois novos aspectos. O primeiro é a inclusão de membros das principais instituições do país, como o STF e os tribunais de contas, entre os denunciados. O segundo é a crescente ligação desses esquemas com o crime organizado, um problema já evidente em níveis estaduais, especialmente no Rio de Janeiro, mas agora alcançando o coração do sistema. Recentemente, um conselheiro do Tribunal de Contas do estado foi preso.

Com a polarização da sociedade e da imprensa, torna-se difícil para a população exercer uma forma de controle social. As principais reações a esse estado atual vieram de jornalistas individuais, mostrando que a luta por justiça e transparência, como já era desejada por Lima Barreto, continua viva.

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